segunda-feira, 4 de outubro de 2010
POLICIAL CIVIL, ESTRESSE PROFISSIONAL E ATENDIMENTO PSICOLOGICO ADEQUADO
POLICIAL CIVIL, ESTRESSE PROFISSIONAL E ATENDIMENTO PSICOLOGICO ADEQUADO
*Márcia Gardênia - Setembro/2010
Estava lendo sobre essa tragédia envolvendo um policial civil que se suicidou depois que matou a irmã. Uma tragédia lamentável. Meus sentimentos a família diante de tão grande dor!
Fato é que, não por acaso, essa tragédia me remeteu a um fato corriqueiro entre os policiais: o constante estresse, e decidi por fim, compartilhar aqui de um momento pessoal que vivo.
Trabalho em uma delegacia onde nunca consegui me adaptar (ficar em harmonia, em conformidade, agir de acordo). Cheguei com boa vontade, mas é claro, precisando das orientações básicas de quem precisa começar um trabalho novo, em um ambiente desconhecido. Encontrei hostilidade e absoluta falta de entendimento entre as autoridades policiais. Se aquilo é o ambiente normal de uma delegacia, Deus que me guarde, proteja e ilumine sempre ! Um ambiente de guerra com cobrança diária de que lado guerrear: de um, sua razão, sua consciência; do outro, aqueles que podem propiciar um ambiente “tranquilo” de trabalho.
Levava comigo os conhecimentos da Academia, aquela que você também participou, onde escutamos reiteradamente que não devíamos nos corromper diante das tentações, devíamos combater o crime com cautela e sem precipitação, onde os criminosos podiam ser até os nossos pares, que os escrivães seriam “escravães”, que os policiais que fossem para o interior teriam várias mulheres, caso quisessem....que seriam flagrantes algumas irregularidades, e lari e lari e lari-ê. Tudo verdade! Só esqueceram de dizer que nossa fala seria muda perante a Secretaria.
Bom, mas além desses conhecimentos eu também ganhei o meu revólver ( ah! como fiquei orgulhosa no dia que peguei essa arma), optei pelo revólver, não sei mesmo manusear uma pistola, até mesmo porque o que eu faço mesmo é digitar, e muito. Ás vezes 16 horas por dia. Isso mesmo! Quem obrigava?! Minha consciência, minha falta de experiência, minha vontade de atender todas aquelas pessoas que chegam sofridas e angustiadas pelos problemas que vocês tão bem sabem. Delegacia sempre lotada, muitos trabalhando, poucos (como sempre) enrolando, fazendo corpo mole, e quase sempre declarando “razão” de toda ordem. O propósito de tanto trabalho sempre foi um só. Dar prosseguimento, fazer um procedimento chegar ao fim. Fazer valer o direito de quem tem garantido na Constituição o direito de acesso à justiça. De dia sentada, mãos ágeis, pensamento rápido e socorro imediato ao Delegado diante da falta de conhecimento do que fazer quando ele não estava presente, pois duas vezes por semana responde por outra cidade (se tem um lugar que um corpo pode ocupar dois lugares no espaço....). O tempo de policia é pouco, mas já são tantas histórias.
A parte boa é que eu gostava, fazia tudo isso feliz. Ficava de bem no inicio da madrugada quando tinha conseguido finalizar um inquérito. Missão cumprida! Mas a sensação dura pouco diante de tantos outros que ainda ficam por concluir!
Daí pegava o meu colchão e rodopiava pela delegacia atrás do melhor espaço para descansar. Quando dava dormia no alojamento com os agentes (policial não tem sexo!), quando não, ficava pelo meu espaço de trabalho ou escolhia a sala do delegado quando tinha certeza que não corria o risco dele aparecer no meio da madrugada para alguma diligência, afinal a sala dele é mais limpa e o ar condicionado funciona direitinho! Até porque no alojamento não se dorme, pois os presos como vocês sabem dormem de dia, a noite fica para empreendimento de fuga, até porque isto não é difícil. Este ano já foram tantas! Também tem combinação mais propicia: local inadequado x excesso de presos x agentes policiais na função de carcereiro em numero reduzido. Hoje temos dezenas deles amontoados em poucas celas. Ademais quem consegue dormir com presos gritando a noite inteira. E se o grito é um só repetido a noite inteira: “carcereiro eu quero água, carcereiro eu quero água, carcereiro eu quero água...”. Mentalizou!? Até tu conseguires tirar esse grito da tua cabeça ele já bebeu o rio Itapecuru.
É ou não é a pura imagem do inferno? E como é.
Sempre levantei antes das seis, já que as noites quase sempre eram de torturar até o diabo e precisava liberar a sala para limpeza. No mais, todas as tensões que você caro(a) colega também passa. Todas as frustações que você também sente. Todos os “sapos” que alguns de nós engolimos.
A MINHA CONCLUSÃO?! Que apesar das dificuldades a imperiosa mudança precisa de ação, não tem outro jeito, precisamos agir.
O MEU ESTADO?! Acerca de seis meses passei a sentir a cabeça adormecer, por duas vezes sentimento de paralisação na face direita. Nos ombros dores intensas, braço direito adormecido e dedos da mão direita muitas vezes desobediente a comandos dados. Falta de ar. Taquicardia intensa, insônia e irritação desmedida e descontrolada. Para controlar a dor fiz automedicação. Para relaxar e dormir, por duas vezes consumo de uma latinha. Se eu bebo? Não. Mas deu certo uma vez, fiz a segunda. Não é assim que os vícios começam?
O meu silêncio me custa hoje duas sessões psicológicas por semana, uma psiquiátrica por mês. O diagnostico inicial foi de estresse no trabalho. Eu pensava até que isso não existia para nós policiais pois me lembro que em uma reunião de trabalho um superior na tentativa de explicar a natureza e as dificuldades do trabalho policial assim disse: “policia é para se f.... ! nossa vida é essa, f.... mesmo”. Parece que é verdade!
Mas, mais verdade ainda é que todos nós sentimos, somos humanos, e entre todos há aqueles que não conseguem se conter e extravasam de maneira prejudicial a si, optando pelos vícios e chegando às vezes ao limite do suicídio.
Certa de que meu estado não estava normal procurei ajuda no lugar errado, pois liguei para a Secretaria e desabafei. Lugar errado, pessoa errada ou desinteressada. Desabafo tardio, eu já estava doente.
Precisei e precisamos de atenção psicológica. Não é vergonha, e para alguns é necessidade. Nada tem haver com falta de perfil psicológico para policial. Conversa fiada, meio de encobrir a falta do devido atendimento que deve ser dispensado a um profissional exposto diariamente a uma situação de estresse. Não podemos trabalhar com as situações de exceção, temos que focar na regra e a regra é estresse diário sim.
Precisamos de um serviço de assistência social para o policial que precisa de apoio que realmente efetive uma cultura de avaliação do quadro do paciente. Saúde é coisa seria e também caso de policia.
Na época da Academia minha turma escolheu como grito de guerra o seguinte: “FORÇA, CORAGEM E DETERMINAÇÃO, ESTAMOS SEMPRE PRONTOS PARA CUMPRIR QUALQUER MISSÃO...!” A turma nunca quis mudar o grito, foi o mesmo do inicio ao fim, confesso que não gostava muito. O que penso hoje!? Grito profético.
Márcia Gardênia é EPC da Delegacia de Policia de Codó/MA. Sinpol-MA
Postado por
Marcio Gerente (Administrador da Saga)
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirTodo ser humano precisa de apoio seja em qualquer área, e principalmente nas de grande risco e estresse rotineiro...como a atividade policial! Noto pela sua postagem que isso está cada vez mais sério,nossa tantos casos já ouvi. Deveria sim ter algo muito sério e diria até multidisciplinar para ajudar ao policial na sua batalha, porém muitos ainda tem um enorme ''receio'' em se submeter a uma terapia...em se deixar ser ajudado por um psicólogo. Me contenta em ver que a ajuda ...surte efeitos para alguns.
ResponderExcluirAbraços,
Paula